Mísseis contra Israel, por que esse ataque de Gaza é diferente dos outros

Foto: Mohammed Ibrahim | Unsplash

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09 Outubro 2023

O ataque massivo que partiu na Faixa de Gaza às seis da manhã em direção ao território israelense não tem precedentes na história recente do eterno conflito entre Israel e a Palestina. Não porque os alarmes também soaram nos céus de Jerusalém e Tel Aviv, algo agora comum com toda a parafernália iraniana fornecida ao Hamas e as várias siglas da heterogênea galáxia da Jihad Islâmica, capaz de penetrar profundamente no território israelense. Também não é inédito em termos de poder de fogo: fala-se de milhares de mísseis apenas nas primeiras horas da manhã, na sua maioria detidos pelo sistema Iron Dome (domo de ferro), solicitado até mesmo pela Ucrânia nestes últimos meses.

A reportagem é de Davide Assael, publicada por Domani, 08-10-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

A novidade não é nem sequer a infiltração em várias aldeias do outro lado da fronteira israelense por milicianos através dos conhecidos túneis subterrâneos que são recriados no momento em que são destruídos.

O aspecto inédito é que nos conflitos de 2012, 2014, 2019, Israel parecia ter o controle das operações, sempre em resposta a provocações militares vindas de Gaza, mas que se desenvolviam em tempos e formas a sugerir um planejamento por parte de Jerusalém. Embora precedido pelo lançamento de um míssil de demonstração em direção do Mediterrâneo, em 2 de outubro, e por uma série de ameaças da Jihad Islâmica Palestina “[…] para proteger Jerusalém e o Monte do Templo das provocações de grupos de fiéis judeus e de políticos israelenses”, o ataque de hoje parece ter pego todos de surpresa.

É claro que a reação israelense já foi anunciada; sua intensidade será, como sempre, proporcional ao perigo percebido e ao arsenal atualmente nas mãos dos vários grupos presentes na Faixa.

Vamos aguardar pelas reivindicações, mesmo assim algumas explicações para o lançamento dos mísseis de hoje podem ser intuídas.

É claro que não é suficiente o aniversário da Guerra do Yom Kippur, que começou em 06-10-1973. Um papel é representado pela eterna competição entre os vários grupos que disputam o poder em Gaza. O Hamas, de qualquer maneira considerado por Israel responsável pelo que acontece em função de ser o governante oficial da Faixa, sofre há tempo a concorrência da Jihad Islâmica, que não perde a oportunidade para se mostrar forte aos olhos de habitantes extenuados por anos de embargo e condições de vida muitas vezes miseráveis.

Não escapa, no entanto, que o que estamos vendo nas últimas horas decorre de manobras cada vez mais explícitas de aproximação entre Jerusalém e Riad, onde no fim de setembro desembarcou pela primeira vez um ministro israelense por ocasião de um encontro internacional (o ministro do Turismo Haim Katz).

A aproximação entre Israel e a Arábia Saudita, estimulada em todos os sentidos pelo governo Biden, é vista por muitos como o ponto de chegada dos Acordos de Abraão assinados em 2020, com os quais se encaminhou um processo de normalização das relações diplomáticas entre o Estado judeu e parte do mundo árabe, que se soma aos tratados de paz assinados com o Egito (1979) e a Jordânia (1994).

Se esses acordos representam um ponto de virada com o qual se tenta dar alguma forma de estabilidade a uma região da qual os EUA querem sair o mais rapidamente possível e que nos últimos vinte anos viu a queda de Estados inteiros (Síria, Iraque, Líbia, se estendermos o caos ao Norte de África), as vítimas sacrificiais parecem ser duas: Irã e Palestina. Na verdade, mais a segunda do que a primeira.

Se a implementação dos Acordos de Abraão pelos EUA parece estar em absoluta continuidade com o governo anterior que os promoveu, Biden, já vice-presidente de Obama na época do acordo igualmente histórico com Teerã em 2015, está tentando encontrar alguma forma de envolvimento no novo Médio Oriente para o governo dos aiatolás, parecendo também apoiado por Mohammed Bin-Salman, cada vez mais dono da política saudita, uma vez que viu a comunidade internacional tolerar o assassinato de Jamal Khashoggi.

Uma manobra que deixaria os palestinos, de Gaza e da Cisjordânia, definitivamente sem protetores, forçando-os a aceitar sem poder de barganha qualquer solução que lhes fosse proposta. Para além da retórica árabe, tornar-se-ia, de fato, um povo sob tutela, truncando qualquer ilusão de autodeterminação a que possa ter aspirado nas últimas décadas. Com o ataque de hoje, os palestinos talvez marcam um ponto. Também uma lição de diplomacia: a paz não pode passar por cima da cabeça de quem combate.

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